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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

LADO A LADO - POR TODA ESTA VIDA




Quais lembranças nós carregamos das experiências a dois? Às vezes me descubro, inoportunamente, inquirindo-me sobre isso. Divago, vario, pairo na brisa do tempo, aguardando as graciosas lufadas de encantadoras recordações. É essencial que as boas lembranças sejam abundantes e meritórias, para que as ruins não sejam marcantes e evidentes.

Talvez eu me contente com as lembranças dos primeiros momentos. Do primeiro beijo. Do coração acelerado ante a sua face deslumbrante me descortinando. Do segundo encontro. O inusitado sobrepujando o corriqueiro para forjar um elo nas fornalhas do destino.

É possível que me bastem as lembranças de sua relação com os filhos. Suas concepções, todas as tentativas e os justos acertos. As gestações, a ampliação do seu corpo e a reconstrução da sua moldura. Os partos, a dedicação e o amor incondicionais, a doutrinação e a edificação da índole de cada um. E em meio a tudo isso, encontrar espaço pra me querer próximo, mantendo acesa a centelha feminina, a fagulha da mulher, em arremate ao acolhimento materno.

Quiçá eu resguarde os momentos menos reservados. As grandes viagens, os belos passeios, as idas ali. Os acampamentos. As inesquecíveis reuniões em família (tanto as famílias que nos ascendem quando aquelas que nos acolheram na sociedade). As conquistas, individuais e coletivas. As conquistas dos filhos e a percepção de saciedade missionária familiar.

Mormente queira eu guardar o que está por vir. As próximas viagens, os netos, os momentos a dois, as aulas de dança e de pilates, a impaciente serenidade de aguardar um ao outro. A perseverança do caminhar juntos. A derradeira despedida.

Mas ao final dessa viagem dentro de meu imaginário concreto, percebo que os acontecimentos podem se tornar parcos se, para o meu amor, não forem singulares os meus SIM e incontáveis as lembranças dos meus sorrisos.

E que eles tenham sido suficientes para justificar a minha presença ao seu lado.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

OLHOS DE AMOR



 
Eu vi o “Olho do Furacão”. E por ele senti medo, tamanha a sua potência e capacidade de destruição. O olho que arranca, arrasta e arremessa tudo que vê e transforma objetos enormes em pequenos ciscos em sua córnea de tormenta.

Eu me guiei por “Olhos de Gato”. Na penumbra do entardecer, na escuridão de noite sem lua, no perigo da neblina densa, sua capacidade de refletir a luz me mostrou a direção da estrada e o caminho seguro pra regressar ao lar e aos braços dos meus.

Eu espiei pelo “Olho Mágico”. E através dele senti calafrios, ao ver (ou deixar de ver) o que projetei em minha imaginação. Mas também senti alegrias, porque me trouxeram imagens que renovaram esperanças, além da porta de entrada.

Eu assisti o “Olho de Tandera”. E o quis em minhas mãos, ainda que ficção, pois me impressionava pela força e pela coragem que arremetia seus seguidores. O Olho que buscava justiça e vencia pela convicção.

Eu comi “Olho de sogra”. E seu sabor, inconfundível, me remete aos tempos de crianças, às brincadeiras de roda, de pega bandeira, de pique esconde e salada de frutas. Momentos inesquecíveis, gravados no córtex do “real” imaginário humano.

Eu busquei por “Olhos D’água”. Muitas vezes, andando pelas campinas, pelos serrados, busquei nascentes, olhos d’água por onde jorra pura e cristalina a seiva da vida, trazida à superfície direto do ventre da terra.

Olhos me levaram, olhos me trouxeram. Ameaçaram-me, confundiram-me. Me permitiram ver e me cegaram. Alimentaram-me (por vezes o corpo e outras a alma). Me fizeram crer no impossível e desejar a ficção, boquiaberto ante seus poderes.

Tantos olhos pra ver, tantos outros pra citar. Tantos sentimentos em mim afloram quantas vontades se lhes associo. Mas por essência, nenhum desses que citei tem brilho próprio. Nenhum deles me transmitiu tantas verdades e tantos fascínios quanto os olhos teus.

Estes não têm “cor de olho”: Não são negros, castanhos, mel, verdes ou azuis. Eles não orbitam nem se deslocam com a velocidade do pensamento. Nem fazem meu coração pulsar fora de ritmo, meu cérebro desenhar um futuro a dois ou meu corpo desejar que esses dois sejam Um.

E nenhum deles jamais estará incrustado harmonicamente em tua face e nunca se fecharão alegremente, pra enxergar um beijo meu. Minha essência se dilata, como pupila, em busca da sua luz.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

MEU MAIOR ESPETÁCULO NA TERRA





Eu fui do céu ao inferno
Buscando inventar algo novo
Observando verão e inverno
Querendo agradar o meu povo

Andando na passarela
Caprichando na alegoria
Evitando qualquer mazela
Buscando pura alegria

Meu samba não mete medo
Meu enredo não é novidade
Minha avenida é meu segredo
Me embalando pela cidade

Meu mestre desfila na sala
Na minha porta: a bandeira
Viajando de ala em ala
Sambando de toda maneira

meus carros são abre-alas
Seguindo a comissão de frente
E o samba exprime as falas
Da Evolução dessa gente

Esse ritmo quase louco
Que repica na bateria
De tanto cantar, fico rouco
E explodo em rara alegria

O Gênesis me deixa rotundo,
Pois me superei criando o mundo!
Se me julgar, não me leve a mal
Minha maior invenção é o Carnaval


Poema de: Mozart Boaventura Sobrinho

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

AMOR ORTOGRÁFICO



Nunca queira prender alguém. Não há prisão que retenha o amor e o respeito.



Eu sequer gosto da palavra POSSUIR, por exemplo, que é impositiva, possessiva e proprietária. Não se possui alguém, nem quando dizemos isso por conotação, entre quatro paredes. A posse é inflexível e preferencialmente indivisível.

Eu adoro as palavras TER e SENTIR, porque elas são transitórias, transitivas e transigentes. Temos e sentimos amor, saudade, desejo, tesão, admiração. Pode-se ter um amigo, um colega, um fã ou um ídolo e por eles (ou com eles) sentir as melhores e maiores emoções.

Mas eu me curvo às palavras DOAR e CEDER, porque são necessárias, etéreas e eternas. Ambos os lados de uma relação podem exercê-las, sem receio. Porque quem DOA e quem CEDE, imortaliza o ato de AMAR.